Diário de bordo — registro 3657: Capitão Santiago Borges assumindo o comando da Golyadkin II, rumo ao planeta Meia-noite. Na tripulação, estão a bióloga e tenente Skye Kovalenko e o geólogo Peter Donovan. Acabamos de aterrissar no planeta, vamos estabelecer a nossa base e iniciar o reconhecimento.
Diário de bordo — registro 3665: Santiago aqui, não ficarei me referindo a mim mesmo como “Capitão Borges”, em todos os registros. Nossos primeiros dias no planeta foram pacatos, para não dizer chatos. Na região onde nos assentamos, a paisagem lembra o Saara noturno somado a diversas montanhas e estruturas rochosas, para a alegria de Peter. Fiquei responsável por montar o nosso laboratório móvel enquanto os pesquisadores se divertem com suas pedras e microorganismos.
Diário de bordo — registro 3752: Santiago falando. Nossa maior descoberta até agora foi uma pedra que emite sons. A moral não está das melhores e para piorar, ficaremos sem comunicação em breve por no mínimo 150 ciclos devido a uma série de tempestades solares, segundo informações da SirtaX. Sugeri encerrar a pesquisa e voltar para a sede, porém Skye e Peter, após reclamarem muito da previsão em cima da hora dos nossos colegas astrônomos, informaram ainda ser possível fazer descobertas interessantes aqui. Solicitamos mais mantimentos e nos preparamos para a tempestade.
Diário de bordo — registro 3798: Santiago aqui. Tenho conseguido manter nossos equipamentos seguros durante as tempestades, porém a maioria está restrito ao interior da nave. Skye e Peter têm trabalhado duas vezes mais, pois precisam garantir que uma amostra é segura antes de trazê-la a bordo e ainda analisá-la profundamente quando ela passa ao laboratório. Precisaremos de umas férias quando isso acabar, ouvi falar em resorts ótimos nas luas de Poosh.
Diário de bordo — registro 3822: Santiago aqui. Finalmente encontramos algo interessante: uma caverna com sinais de intervenção inteligente. A entrada possui uma porta projetada para guardar ou prender algo no seu interior, uma espécie de cofre talvez. Donovan está estudando uma forma de acessar o local preservando-o o máximo possível enquanto pragueja elogios a SirtaX por não ter mandado um arqueólogo conosco.
Diário de bordo — registro 3847: Santiago. Não sei dizer o quanto da estrutura foi danificada, Donovan não parecia muito feliz consigo mesmo, mas o importante é que entramos. A caverna se estende profunda e estreita por vários quilômetros antes de acabar em uma clareira com um monólito espelhado no centro. Ele é completamente negro, tem um pouco mais de um metro de altura e meio metro de largura. Ele reflete apenas a nossa imagem, sem nada nos arredores ou no fundo. É impossível realizar uma análise decente aqui. Tivemos uma longa discussão sobre trazer a descoberta para ser estudada a bordo ou não. Skye foi derrotada por dois votos a um e vamos carregá-lo conosco.
Diário de bordo — registro 3850: Kovalenko. Sofremos um acidente — Santi, cuida a a perna dele — A caverna colapsou assim que tentamos retirar o monólito. O capitão e eu saímos apenas com alguns arranhões, mas Dony ficou preso. Caso consigam acessar essa mensagem e não façamos mais contato, nossas coordenadas são: 40° 47′ 37.842″ N 73° 59′ 46.982″ W.
Diário de bordo — registro 3851: Santiago aqui. Sobrevivemos. Precisei carregar Peter até a nave, enquanto Skye tentava manter o olhar dele, nela e não no osso para fora de sua panturrilha. Depois voltei para pegar o maldito monólito, não iria deixá-lo para trás depois de tudo isso. A caverna possuía algum mecanismo de defesa para ele não ser removido, mais um motivo para descobrir o que é essa coisa.
Diário de bordo — registro 3858: Kovalenko. O espécime deu negativo para radiação e não emite ou conduz eletricidade, ou ondas eletromagnéticas. Ele também não reage a fogo ou água. Ainda não conseguimos entender o padrão de reflexo dele, por enquanto, ele reflete apenas… nós.
Diário de bordo — registro 3872: Santiago aqui. Hoje encontrei Skye dormindo no armário de remédios. Foi bem difícil acordá-la e ela nem sequer lembrava ter ido dormir ali. Não precisa ter quatro diplomas para notar que ela está sobrecarregada. Peter passa a maioria do tempo dopado de remédios para dor e Skye toca a pesquisa do monólito sozinha, dia e noite, quase não a vejo fora do laboratório. Deixei ela no quarto descansando e mandei ficar lá até amanhã, mas quando passei pelo laboratório a caminho da cabine de comando, ela já estava lá novamente. Fico me perguntando como ela chegou lá sem passar por mim.
Diário de bordo — registro 3880: Skye… o que preciso dizer? Ah! Skye falando. O monólito não é composto por minerais conhecidos. Identifiquei estruturas de hidrogênio apenas. Não detectei nada tóxico a seres humanos… Quer deixar eu terminar, Borges? Sobre o comportamento do objeto, ele parece apenas refletir imagens do que vocês consideram seres vivos de organismos complexos. Tá bom assim?
Diário de bordo — registro 3889: Santiago aqui. A situação de Skye está piorando, nos últimos dias ela teve atitudes agressivas e falas das quais não se lembra depois. Ela inclusive esquece coisas sobre ela mesma, esses dias ela não lembrava do próprio pai. Pensei em mostrar-lhe filmagens do seu comportamento, mas quando consultei as gravações, todos os registros haviam sido apagados. Apenas nós dois temos esse nível de acesso.
Diário de bordo — registro 3891: Santiago falando. Hoje Skye me acordou no meio da noite dizendo que havia mais alguém na nave além de nós três. Ela estava tremendo e suando, mal conseguia articular as palavras. Quando perguntei onde ela havia visto essa pessoa e como ele era, começou a chorar e se encolheu no canto do quarto. Vasculhei a nave inteira, mas não encontrei viva alma. Até pensei ter visto movimento no laboratório, mas não encontrei nada. Coloquei Skye para dormir no meu quarto e ela se acalmou. Preciso fazer alguma coisa.
Diário de bordo — registro 3896: Santiago aqui. Tenho ficado no laboratório com Skye o máximo possível. Ficar olhando para aquele monólito dia e noite, vendo meu reflexo cercado por escuridão, me causa náuseas e dor de cabeça. De tanto encará-lo, às vezes sinto meu reflexo me olhando de volta. Nietzsche faria a festa. O importante é que Skye está melhor comigo aqui, não foi agressiva, não chorou e até sorriu algumas vezes, precisarei aguentar as enxaquecas e o reflexo bizarro.
Diário de bordo — registro 3951: Santiago. Tenho uma teoria sobre parte dos problemas de Skye. Ontem peguei no sono no laboratório, tive uns sonhos estranhos e acordei no meu quarto. Talvez algo naquele monólito esteja nos causando sonambulismo. Levarei essa teoria para ela que tem mais diplomas.
Diário de bordo — registro 3983: Kovalenko falando… Eu… eu não sei mais quem eu sou, eu não… Santi deve pensar que enlouqueci, talvez ele tenha razão, eu não consigo me lembrar e quando consigo, acho que sou eu., ela, quem estou fazendo isso tudo. Acho que pegaram Santi também, devem estar se escondendo naquela coisa. Sim, tem que ser isso, não pode ser eu, não pode! Eu tentei quebrar o monólito hoje, mas falhei. Eu vou dar um fim nisso, desculpa papai, talvez eu não volte para casa.
Diário de bordo — registro 3987: Santiago. O sistema de iluminação e o motor da nave foram sabotados durante a noite. Não há sinal de Skye em lugar nenhum e não irei muito longe até conseguir ligar as luzes de emergência. Skye não está bem, eu assumo total responsabilidade pelo incidente e… acho que ouvi um grito.
Diário de bordo — registro 3988: Eu, eu, talvez tenha ouvido o Peter gritar. Essa nave vazia e escura cria toda sorte de ilusões na sua cabeça, agora estou ouvindo passos por todos os lados. Sou um merda. Estou apavorado de passar pelo laboratório para chegar nos quartos e falando com um rádio idiota para me sentir melhor.
Diário de bordo — registro 3989: O monólito sumiu. Não está mais no laboratório. Continuo ouvindo muitos passos, será que pega na gravação ou é só na minha cabeça? Estou chegando nos quartos.
Diário de bordo — registro 3990: Ela… eu não acredito, ela… ela matou o Peter. Tava lá, parada, com a faca na mão, toda ensanguentada e ele… e ele… eu saí correndo e nem vi se ele tava morto mesmo.
Diário de bordo — registro 3991: Estou escondido como uma criança. Consigo vê-la a uma distância segura: ela está tentando levar o monólito para fora da nave, parece ter colocado uma roupa limpa. Ela está concentrada, talvez se eu chegar por trás… Tem… tem alguém vindo?
Diário de bordo — registro 3992: Capitão Borges falando. A situação está sob controle. Consegui imobilizar a tenente Kovalenko sem machucá-la. O monólito também foi recuperado sem maiores danos. Infelizmente ele não parece fazer nada de mais, mas julgo que seria uma ótima aquisição para um museu, onde várias pessoas possam observá-lo o dia todo. Pelo menos a tempestade está quase no fim, estamos ansiosos para sair desse lugar.
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