A Troca

Todos já estavam aconchegados ao redor da fogueira quando amarrei o cavalo e sacudi o sereno do lombo. Mesmo com o assovio do vento e o crepitar do fogo, tinha a impressão de ainda conseguir ouvir.

— Te aprochega, Nunes. Tá te tremendo de frio.

Meu poncho cumpria bem sua função. Foi o cheiro familiar de fumo temperado a mate e a visão de meus companheiros de anos que aquietaram meus membros. 

— Tais mais branco que eu — inticou o Gringo com as bochechas em chamas — Encontrou o lobisomem anão do Antenor no caminho?

Ele deu um tapa na coxa enquanto soltava uma risada encatarrada, contagiando os demais e preenchendo a noite de agosto. Na última tertúlia, Antenor veio com um causo de um lobisomem de meio metro, parecia mais um cusco esgualepado do que assombração.

— Vocês tão rindo porque não viram o coiso do tamanho de um piá, correndo em duas pata, mais rápido que cavalo. 

— Claro que não, a gente para o trago antes!

Mais risadas. Até o próprio Antenor, que já parecia estar na terceira dose de canha, se viu obrigado a mostrar os dentes amarelados. Senti inveja de sua inocência e alegria, ali em frente a fogueira, completamente ignorantes daquele causo maldito. Talvez isso tenha facilitado passar a história adiante.

— Antes fosse o lobisomem, meus amigos. Antes fosse. 

“Eu vinha cavalgando pra nossa tertúlia, quando, no meio da estrada, um gaúcho de viola nas costas se jogou na frente do pingo. Se o bicho não é ligeiro e reage antes de mim, tava feita a desgraça. Encontrei o homem estirado na beira da estrada batendo a cabeça na terra. Quando cheguei perto, ele me agarrou pelo poncho e me apontou um revólver.

Escuta, vivente. Eu preciso que alguém ouça minha confissão e esse alguém vai ser tu.

Foi só então, vendo os olhos azuis amendoados tão próximos da minha cara e juntando a voz rouca com o instrumento caído ao nosso lado, que reconheci Rui Cortez Machado, o melhor violeiro do sul. A mão que segurava o revólver era a mesma que compôs a música do meu casamento.

Ele me contou, senhores, a história de como ele se tornou “o” Rui Cortez Machado. De como quando tinha dezessete anos, depois de tocar de esquina em esquina, bolicho em bolicho, sem nunca ser notado nem conseguir dinheiro suficiente pra casar com sua prenda. Ele voltava de mais uma noite sem sorte quando encontrou um homem de chapéu na encruzilhada, tocando uma música tão linda que, quando ele deu por conta, tava parado na frente do Violeiro, contemplando. O Violeiro da encruzilhada disse poder ensinar ele, em troca de sua alma dali a dez anos. 

— Mas capaz que foi isso que te afrouxou os garrão, Nunes.  — Me interrompeu o Gringo enquanto Antenor, menos valente, já estava no seu terceiro sinal da cruz — Todo mundo sabe do trato do Cortez Machado com o coisa ruim.

— Não, Gringo. Esse era só o começo da confissão.

“Como prometido, o Violeiro da encruzilhada ensinou Rui e, como combinado, dez anos depois ele voltou. Cortez Machado colocava a miúda pra dormir quando ouviu as notas invadindo a casa sem cerimônia à meia-noite do seu vigésimo sétimo aniversário. Encontrou o Violeiro esperando do lado de fora do casarão, pronto pra lhe recolher a alma. 

Não há outro jeito?

Tentou barganhar Cortez Machado. O Violeiro, acatou. Disse que aceitaria um pacto com o guri do estábulo.

Eu só preciso convencer ele a fazer o mesmo acordo?

O Violeiro confirmou. Cortez Machado pensou no quão melhor, mesmo que curta, seria a vida do piá quando fosse famoso. O dinheiro que ganharia, as chinas com quem deitaria, a prenda com quem casaria. Um destino muito melhor do que um guri de estábulo, dormindo nas baia e trabalhando feito um animal. Sim. Muito melhor. Ali era provável que, além de pouco, vivesse mal. O último tinha morrido pisoteado pelo alazão aos catorze anos. Foi assim que ele vendeu o pacto. O piá, coitado, vendo o patrão e herói falar com ele pela primeira vez como gente não teve nem chance.

Rui não ouviu o que o Violeiro disse ao guri, apenas lembra da mãozinha apertando a mão de dedos finos e unhas longas; o som da pele afinando, ressecando, encolhendo; o grito agudo de criança, os olhinhos de bolita esbulhando até saltarem das órbitas e caírem no amontoado de cinzas que um dia foi um menino esforçado.

A alma dele é minha e os anos dele são seus

Foi a última vez que Cortez Machado viu o Violeiro. Com o passar dos dias, não conseguia mais sentir o gosto nem o aroma da comida, apenas o cheiro de carne humana queimada. Quando olhava pra sua filha, a imagem dos olhos rolando pelo chão do estábulo tomava conta de sua mente. Quando tocava, não ouvia mais as notas, apenas o grito estridente que maculou a noite.

— O pior de tudo, senhores, é que desde que ele me fez essa confissão e eu o deixei na estrada com o revólver apontado pra cabeça. Toda vez que fica quieto o suficiente, eu também consigo ouvir o berro do piá.

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