A mulher puxou o ar, tentando preencher diafragma e pulmões. Dentro de si, apenas falta. Não do ar, este vinha contaminado por fungos e partículas de poeira, mas do coração que se recusava a bater. Abriu os olhos e deparou-se com a lembrança de um verde, agora craquelado e tomado por infiltração. Suas unhas rasgaram o carpete carcomido por traças até arranharem o concreto gélido, esperando uma morte inalcançável. Na boca, o gosto do nada.
Esgueirou-se pela parede e andou pelo cômodo, os passos pesados tentavam emular o som perdido quando um aroma invadiu-lhe as narinas e fez suas pupilas dilatarem. Para uma pessoa era apenas o cheiro de carne putrefata e sangue seco.
Não soube como o rato morto foi parar em sua boca, nem como seus dentes conseguiram rasgar pelo e carne até chegar nos pequenos órgãos recheados de sangue, muito menos porque a podridão de um dia de morte não a incomodou.
Passos ecoaram no andar de baixo, seguidos pelo som metálico de um carrinho de limpeza sendo puxado. A criatura ouviu os batimentos do zelador mesmo a cômodos de distância e sorriu exibindo os dentes, o sangue os pintando tal qual aquarela em tela branca. Encontrou o que lhe faltava.
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