Vítima

— Lembra de mim?

— Mas quê? Onde eu estou?

— No nosso teatro. Sentiu minha falta?

— Que porra é essa? Por que tô amarrado? Socorro! Socorro!

— Ninguém vai ouvir, tem isolamento acústico. Tu mesmo me disse isso, lembra? Há exatos cinco anos.

— Olha, se isso é algum exercício de imersão, passou dos limites.

— Ah, mas a gente ainda nem começou. Tu não disse se lembra de mim.

— Moça, tu tá com uma máscara teatral de medusa, nem se eu quisesse.

— Estou decepcionada com você, Adriano.

— Eu te rejeitei pra algum papel, foi isso? Me desamarra, a gente pode ter uma conversa civilizada.

— A gente viveu tanto juntos.

— Acho difícil, eu sou casado há mais de vinte anos.

— Eu cheguei aqui em 2017, lembra de mim?

— Tu deve tá me confundindo alguém, moça. Me solta e eu não chamo a polícia. 

— Eu era a tua melhor atriz, lembra de mim?

— Eu nunca te vi na vida. Tu não tá bem, tu precisa de ajuda. Me solta.

— Tu disse que eu única, lembra de mim?

— Moça… Larga a faca.

— Eu substituí a Roberta quando ela ficou velha demais, lembra de mim?

— Socorro! Alguém me ajuda! Socorro!

— Hoje é meu aniversário, sabia? Dezoito anos.

— Nemi, tu não precisa fazer isso. A gente pode conversar, que nem nos velhos tempos.

— Calma, Adri. Não vai doer. Vou fazer devagar.

Nota da Theo: Esse texto foi baseado na música "Missed Me?" do The Dresden Dolls e na "Medusa" do Caravaggio.


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