Instinto

Observou a foto de Lucas esmaecer na tela do celular até o breu fazê-la encarar a própria face apática no reflexo. Tocou no visor mais uma vez apenas para contemplar as catorze ligações realizadas sem sucesso. Permaneceu deitada no sofá, cercada pela escuridão que tomara conta do bairro nas últimas horas. Tentou trazer os joelhos ao rosto para se manter protegida, mas seu corpo resistiu. Será que ainda estava ali? Os dedos passaram pelo ventre em apertos delicados. Uma, duas, três batidinhas, como costumava fazer. Lucas dizia que ela estava delirando, mas sempre obtinha resposta.

Três pancadinhas soaram no corredor. A jovem levantou ignorando a dor lancinante que irradiou para pernas e torso, assim como a água gélida que recebeu seus pés antes deles tocarem o piso frio. Seguiu tateando através do negrume da sala e parou em frente ao quarto recém mobiliado, habitado por nada além de silêncio. Mais três batidas a suas costas.  Ela se virou para a porta do banheiro, sentia a água verter pelo vão. Entrou. Os olhos acostumados com a falta de luz enxergaram a banheira transbordando. Ela retirou o pequeno corpo rígido e enrugado da água e o levou para o berço pensando em como seria a primeira amamentação.



One response to “Instinto”

  1. Wow

    Eu não vi esse final vindo.

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