Contos
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Alecrim

— Gazu, pode segurar o Alecrim um momentinho? O Cavaleiro dirigiu a pergunta às sombras enquanto um machado acertava seu escudo pesado e ele segurava, impassível, um pequeno vaso com dois raminhos de alecrim. Continue reading
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Não leve as armas para a cidade

Os grãos de areia correram pela pele alva de Jane procurando o caminho para seus olhos. Ela afundou o chapéu na cabeça e virou o rosto a tempo. O seu cavalo sacudiu a crina e empinou as patas dianteiras, só não sabia se era devido à tempestade de areia, que se recusava a partir, ou… Continue reading
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Assassinato no bloco C
Cheguei atrasado ao local do crime. Àquela altura os moradores do bloco estavam ou no conforto de suas janelas espichando o olho e cochichando ou no pátio fazendo perguntas relevantes como “Onde vamos parar?”. Quando me viram, devido à minha relação com a vítima, um silêncio respeitoso se instaurou no local. Continue reading
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Instinto
Observou a foto de Lucas esmaecer na tela do celular até o breu fazê-la encarar a própria face apática no reflexo. Tocou no visor mais uma vez apenas para contemplar as catorze ligações realizadas sem sucesso. Permaneceu deitada no sofá, cercada pela escuridão que tomara conta do bairro nas últimas horas. Tentou trazer os joelhos Continue reading
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Janeiro de 1969
Eu estava dormindo embaixo da cama quando a mãe Elisa me acordou naquela noite. Lembro-me bem do cheiro do carpete — hoje nada mais do que cheiro de infância — e do calor emanado pelo corpo dela, ofegante. Apesar de a mãe Tânia ter me mostrado milhares de fotos de Elisa depois daquele dia, a… Continue reading
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Lar
11/04/2023 [16:05] Eu: Mudança finalizada! Achei que não fosse acabar nunca. [16:07] Joana: Aeee! Conseguiu ligar a luz? [16:10] Eu: Ainda não 😭 [16:12] Joana: Ai, amiga. Eu te disse pra esperar resolver isso e depois se mudar. [16:20] Eu: Eu sei, mas não conseguia mais ficar naquele apartamento. Muitas lembranças. Continue reading
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Três tempos
Não conseguiu determinar qual era a nota do som estridente que sempre o sobressaltava. Talvez fosse Lá, nota sem graça. O barulho do telefone invadiu seu quarto doze vezes antes do silêncio. Ironicamente, o mesmo número de Ré iniciais de Danse macabre tocados por Lauro no violino antes da sinfonia telefônica retornar. Continue reading
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O crime de todo dia
o contrário da maioria, sempre achei West End um lugar deprimente. Moças cantando trechos de “Wicked” nas calçadas, ansiando por uma oportunidade que jamais chegará. Suas vozes misturam-se com as sirenes policiais e ambas se perdem nas noites chuvosas. Em meio a essa cacofonia, em um hotel de quinta categoria, um homem repousava de bruços… Continue reading
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Rotina
Chega do trabalho. De novo, mais uma vez. O cachorro faz festa, balança o toco de rabo, boca aberta, língua pra fora. Respira, solta. Respira, solta, respira solta respira solta. Um afago na cabeça, um petisco. Para. Senta. Repete. Amor verdadeiro. Não igual ao da esposa, ex. Foi embora sem retorno, não aceitou as rosas. Continue reading
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Um crime hediondo
— Ninguém sai até eu descobrir quem foi! Marilene, puxa o Altemir pra dentro e tranca a porta. Era comum ter algum tipo de comoção na cozinha da prestação de contas. Certa feita, uma vendedora de trufas fora retirada pelos seguranças por ser estritamente proibida a “transferência de propriedade de algo para outrem mediante pagamento… Continue reading
