conto
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Janeiro de 1969
Eu estava dormindo embaixo da cama quando a mãe Elisa me acordou naquela noite. Lembro-me bem do cheiro do carpete — hoje nada mais do que cheiro de infância — e do calor emanado pelo corpo dela, ofegante. Apesar de a mãe Tânia ter me mostrado milhares de fotos de Elisa depois daquele dia, a… Continue reading
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Lar
11/04/2023 [16:05] Eu: Mudança finalizada! Achei que não fosse acabar nunca. [16:07] Joana: Aeee! Conseguiu ligar a luz? [16:10] Eu: Ainda não 😭 [16:12] Joana: Ai, amiga. Eu te disse pra esperar resolver isso e depois se mudar. [16:20] Eu: Eu sei, mas não conseguia mais ficar naquele apartamento. Muitas lembranças. Continue reading
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Três tempos
Não conseguiu determinar qual era a nota do som estridente que sempre o sobressaltava. Talvez fosse Lá, nota sem graça. O barulho do telefone invadiu seu quarto doze vezes antes do silêncio. Ironicamente, o mesmo número de Ré iniciais de Danse macabre tocados por Lauro no violino antes da sinfonia telefônica retornar. Continue reading
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O crime de todo dia
o contrário da maioria, sempre achei West End um lugar deprimente. Moças cantando trechos de “Wicked” nas calçadas, ansiando por uma oportunidade que jamais chegará. Suas vozes misturam-se com as sirenes policiais e ambas se perdem nas noites chuvosas. Em meio a essa cacofonia, em um hotel de quinta categoria, um homem repousava de bruços… Continue reading
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Rotina
Chega do trabalho. De novo, mais uma vez. O cachorro faz festa, balança o toco de rabo, boca aberta, língua pra fora. Respira, solta. Respira, solta, respira solta respira solta. Um afago na cabeça, um petisco. Para. Senta. Repete. Amor verdadeiro. Não igual ao da esposa, ex. Foi embora sem retorno, não aceitou as rosas. Continue reading
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Um crime hediondo
— Ninguém sai até eu descobrir quem foi! Marilene, puxa o Altemir pra dentro e tranca a porta. Era comum ter algum tipo de comoção na cozinha da prestação de contas. Certa feita, uma vendedora de trufas fora retirada pelos seguranças por ser estritamente proibida a “transferência de propriedade de algo para outrem mediante pagamento… Continue reading
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Sobre amores e filmes
— Acho que a essa altura é seguro dizer: tu é praticamente a Julia Roberts. — Julia Roberts? Em “Uma Linda Mulher”? — Não, tonta. “Noiva em Fuga”. — Noiva? Tá louco? Nem namoro chegou a ser. — Namorada em fuga, que seja. Já reparou com tu sempre dá um jeito de terminar teus rolos… Continue reading
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Vítima
— Lembra de mim? — Mas quê? Onde eu estou? — No nosso teatro. Sentiu minha falta? — Que porra é essa? Por que tô amarrado? Socorro! Socorro! — Ninguém vai ouvir, tem isolamento acústico. Tu mesmo me disse isso, lembra? Há exatos cinco anos. Continue reading
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A casa da Colina
“O silêncio se escorava com equilíbrio na madeira e nas pedras da Casa da Colina, e o que entrasse ali, entrava sozinho.” — Na verdade, nós estamos em três, Sinistra. Já começou a mentirada. — Aff, Cabeça. Tu entendeu o que eu quis dizer. Assim fica muito mais… sinistro. — Fica muito mais mentiroso, isso… Continue reading
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Na estrada
unindo escuridão de seu pelo com o breu dos últimos quilômetros. “Ela deixou ele fugir?” A jovem riu: deixara a fazenda há mais de dez anos. A bateria do celular morreu antes da 101. Ou foi depois? De qualquer modo, o que importava era ir para longe. Era estranho pensar na fazenda logo naquele momento.… Continue reading
